19 de abril de 2016

As noites na cidade de Descoberta



Acredito que aquele era o melhor quarto da casa, minha cama era de casal, tinha uma luz bem em cima dela que eu ascendia quando entrava no quarto e apagava apertando um botão que ficava na cabeceira da cama, quando eu já estava deitada (até hoje, sonho em por uma dessa na minha casa).  Lá era interior, eu acordava bem cedo, com o som da natureza, natureza de verdade, cheiro de fazendo, os bichos dando com dia e o cheiro de café fresco fazendo cafuné até que eu despertasse.

Na varanda tinham varias redes e a brisa era a todo o momento, eu poderia mesmo ter tido boas férias, estava entre família. Bom, convenhamos que apesar de estar na casa dos meus avós paternos, precisávamos ter calma, pois eu estava conhecendo a todos naquele momento.

Lá, não pegava telefone, celular, internet, nem nada parecido com isso, tem épocas da nossa vida, em que só precisamos de lugares exatamente assim, aquele finzão do mundo, que não tenha nenhum meio de comunicação, te desconecte de tudo e te faça refletir.

Mas não. Não naquela época da minha vida. Eu tinha apenas dezoito anos, estava a alguns meses morando sozinha, tinha acabado de ser pedida em noivado, vivia rodeada de sociais e pessoas, morando no centro da cidade, aquela agitação, um blog no auge de visitas, redes sociais sempre movimentadas e todo esse ritmo desgovernado da  vida.

As manhãs eram calmas no interior, do interior, tudo era fresco, o almoço então nem se fala. As tardes eram tranquilas, leves, relaxantes, quase não ficávamos em casa, estávamos de férias e meu pai queria mesmo era me levar para conhecer os quatro cantos da cidade de Descoberta. O dia passava voando, até chegar a infinita e eterna noite.

Tudo parecia perfeito, tinha tudo para serem umas férias e tanto, o clima pedia isso, mas o sofrimento que me agarrava todo dia na hora de dormir, realmente mexeu demais com minha cabeça e dominou minhas vontades.

Eu ficava acordada por horas, mesmo com sono, o silêncio na casa era profundo, luzes apagadas, e por mais que meus olhos estivessem arregalados eu enxergava tudo preto, tudo escuro. De repente eu começava a me questionar, porque eu estava ali, o que eu estava fazendo naquele lugar, meu noivo, meus amigos, meus familiares, meu trabalho, minha vida, quanta loucura...

Quando eu percebia, já estava agarrada em uma almofada totalmente banhada em lágrimas. A noite doía muito no meu coração, a sensação de que nunca mais veria ninguém controlava qualquer pensamento positivo que eu forçasse a ter.  Eu só queria estar em casa, feito animal fora do casulo.

Imaginariamente, sentia o abraço da minha tia (que fez o papel de pai na minha vida), queria ouvia a voz da minha mãe, via o André ali comigo. Me dava conta da solidão então, apertava os olhos, orava e adormecia sofrendo. Dai comecei a não conseguir ter mais um dia se quer agradável das férias. 

Alguns dizem que eu não me adaptei na vida calma do interior, outros dizem que eu detestei meus novos parentes, o ciúme do meu pai culpa meu noivo, o coração da minha mãe diz que foi a insegurança, eu mesma, nem sei o que houve, mas acho que criar um motivo não faz sentido, eu estava vivendo uma explosão de situações. Eu tinha dezoito anos e estava embarcada em um avião com destino a um lugar novo, desconhecido e desaparecido do mapa.

Na minha mala só havia perguntas, duvidas, questionamentos e interrogações. Conhecer seu pai aos dezoito anos é curioso, você se pega com afinidade e amando alguém até então estranho, como se você conhecesse desde que nasceu, de repente tem uns lapsos  de angustia, de tristeza, de amor, de felicidade, de emoção e fica nessa montanha russa de sentimentos.

Já me vi fraca por diversas vezes, em perigo, desprotegida e ate insegura, mas, se tivesse que criar um top dessas situações, com certeza essas noites estariam em primeiro lugar. Acho que toda a explicação fica nesses dois últimos parágrafos, pudera... Essa foi sem duvidas uma das maiores e melhores experiências que já vivi.


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